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Política

Felício Ramuth e a Investigação em Andorra: O que a Política Paulista Precisa Enfrentar

Diego Rodríguez VelázquezPor Diego Rodríguez Velázquez06/05/2026Nenhum comentário5 Mins de leitura
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Felício Ramuth e a Investigação em Andorra: O que a Política Paulista Precisa Enfrentar
Felício Ramuth e a Investigação em Andorra: O que a Política Paulista Precisa Enfrentar
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O caso envolvendo o vice-governador de São Paulo, Felício Ramuth, e uma suposta movimentação financeira suspeita no principado de Andorra vai muito além de um episódio isolado. Trata-se de uma situação que mistura offshore no Panamá, cooperação jurídica internacional, omissão em declaração de bens à Justiça Eleitoral e um contexto político delicado às vésperas de uma eleição. Ao longo deste artigo, o leitor encontrará uma análise detalhada sobre o que se sabe até agora, o que os fatos revelam sobre o sistema político brasileiro e por que essa investigação merece atenção além dos holofotes do noticiário imediato.

O epicentro do caso: Andorra e uma offshore no Panamá

A Unidade de Inteligência Financeira de Andorra produziu um relatório que aponta suspeita de “delito grave de branqueamento de capitais” relacionado a uma conta mantida no AndBank pelo casal Felício e Vanessa Ramuth. Os recursos, que totalizam US$ 1,6 milhão, teriam chegado a essa conta a partir de uma offshore denominada Visio Corporation LTD S.A., aberta no Panamá em nome da esposa do vice-governador.

Andorra não é um destino financeiro comum. Encravado entre a França e a Espanha, o minúsculo principado construiu ao longo de décadas uma reputação de destino preferido por aqueles que buscam tributação reduzida e discreção financeira. Embora o país tenha feito avanços na transparência bancária por pressão internacional, o perfil histórico do local é suficiente para despertar atenção de qualquer autoridade de compliance.

As movimentações consideradas suspeitas pelas autoridades europeias teriam ocorrido entre 2009 e 2011, período em que Ramuth exercia a função de secretário de Transportes de São José dos Campos. Vale lembrar que, naquele momento, Ramuth não era ainda um nome de projeção nacional. Era um gestor municipal em ascensão, cujos recursos declarados não correspondiam, ao menos aparentemente, ao volume financeiro identificado no exterior.

O silêncio patrimonial que pesou nas urnas

Um dos pontos mais sensíveis da investigação não é estritamente judicial. É político e moral. Quando Ramuth concorreu ao cargo de vice-governador em 2022, declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio total de R$ 1,4 milhão, incluindo apenas R$ 9,3 mil em conta bancária no Brasil, R$ 67 mil em espécie e nenhum valor mantido fora do país.

A ausência de qualquer declaração de ativos no exterior contrasta diretamente com a existência de uma conta aberta em Andorra desde outubro de 2009. Seja por omissão deliberada, seja por interpretação jurídica questionável, esse dado impõe uma questão que transcende a esfera criminal: o eleitor paulista tomou sua decisão com base em informações completas sobre o candidato?

A transparência patrimonial nas candidaturas não é um mero protocolo burocrático. Ela compõe o contrato de confiança entre representante e representado. Quando esse contrato é fragilizado, toda a cadeia de legitimidade democrática sofre.

A defesa e o STJ: um campo de disputa jurídica

Ramuth tem sustentado que os recursos são de origem lícita, anteriores à sua carreira política, e que estão devidamente declarados à Receita Federal. O vice-governador afirma que os esclarecimentos já foram prestados às autoridades de Andorra, inclusive com apresentação de cópias das declarações de Imposto de Renda no Brasil.

A defesa chegou a pedir o arquivamento do pedido de cooperação em tramitação no Superior Tribunal de Justiça, argumentando que o tema teria perdido objeto após os depoimentos prestados no principado europeu. Essa estratégia defensiva é tecnicamente válida, mas o encerramento formal de um processo judicial não equivale ao encerramento do debate político em torno do caso.

Em maio de 2023, já como vice-governador, Ramuth viu a Justiça de Andorra determinar o bloqueio de US$ 1,4 milhão na conta investigada. O bloqueio judicial de ativos é uma medida cautelar que normalmente requer elementos concretos de suspeição. Não é uma providência tomada levianamente por qualquer sistema jurídico minimamente funcional.

O peso político de 2026

O timing da revelação pública desse caso não é neutro. Ramuth é apontado como o nome mais cotado para compor novamente a chapa à reeleição do governador Tarcísio de Freitas, e Tarcísio já sinalizou publicamente preferência pela manutenção do vice na chapa.

Esse cenário coloca em perspectiva algo que vai além do mérito jurídico do caso. A investigação internacional passa a integrar o debate eleitoral, e o governador, ao defender publicamente seu vice, assume parte do ônus político dessa escolha. Em um contexto em que a transparência se tornou um ativo eleitoral cada vez mais valorizado, ignorar investigações dessa natureza pode custar mais do que a troca de um parceiro de chapa.

A política brasileira tem o hábito de tratar casos judiciais como disputas retóricas, onde a ausência de condenação definitiva serve de escudo permanente. Esse raciocínio, embora compreensível do ponto de vista jurídico, empobrece o debate público e rebaixa o padrão de exigência sobre quem exerce poder.

O caso Ramuth ainda não tem desfecho. Mas as perguntas que ele levanta sobre patrimônio não declarado, offshore e a relação entre recursos e trajetória pública já existem, e precisam de respostas à altura da responsabilidade que o cargo exige.

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

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